Fala galera, eu sempre gostei muito de ler e escrever, desde criança fazia palavras cruzadas, quando não entendia uma palavra em um texto eu consultava no dicionário e assim ampliava meu vocabulário, pois antigamente não tinha Google e para saber o significado de Percalina (logo vão entender) por exemplo, era preciso ir até o dicionário e então eu procurava a palavra e na mesma página havia uma infinidade de outras palavras, com seus respectivos significados e assim eu me distraia lendo e me informando e com o tempo isso se tornou um hábito, pegava um livro para ler já com o dicionário ao lado para não perder o contexto do que eu lia.
Entre os vários autores que gosto de ler, Drummond sempre foi o que mais me levava ao dicionário, entre seus textos cotidianos, com palavras rebuscadas, difíceis e pouco usuais para uma criança era como um desafio, até onde eu conseguiria ler sem uma consulta? Vinte linhas, uma página, duas folhas??? Era realmente desafiador.
Este hábito se arrastou até os dias de hoje, se não conheço algo, imediatamente consulto e me aprofundo no assunto, tenho sede de conhecimento.
Mas, voltando ao tema, quem exatamente foi Drummond, que é o tema do tópico?
Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira, Minas Gerais, em 1902, e carregou essa origem para dentro da sua poesia como quem guarda uma marca permanente. Funcionário público por boa parte da vida, nunca separou o cotidiano da literatura: ao contrário, fez da rotina, das dúvidas e das pequenas cenas do dia a dia a matéria-prima de seus versos.
Sua obra atravessa temas universais como o amor, a solidão, o tempo e a morte, sempre com uma linguagem direta, irônica e profundamente humana. Drummond soube falar das grandes questões sem perder o tom íntimo, aproximando o leitor da poesia como se estivesse em uma conversa franca. Livros como Alguma Poesia, Sentimento do Mundo e Claro Enigma mostram essa capacidade de evoluir, experimentar e, ao mesmo tempo, manter uma identidade inconfundível.
Mais do que um dos maiores poetas do Brasil, Drummond é um autor que ensinou a olhar o mundo com atenção e sensibilidade, encontrando poesia até nas pedras do caminho.
Carlos Drummond de Andrade:
- Geração: Modernismo Brasileiro (Segunda Geração, “Geração de 30”).
- Nascimento/Morte: Nasceu em Itabira, MG (1902); faleceu no Rio de Janeiro (1987).
- Temas: Existencialismo, questões sociais, amor, vida cotidiana, crítica social, família, filosofia, tudo com um olhar único e muitas vezes melancólico.
- Estilo: Linguagem coloquial, ironia, reflexão profunda, explorando diversos temas e formas poéticas.
- Obras Notáveis: “Alguma Poesia”, “Sentimento do Mundo”, “A Rosa do Povo”, “Claro Enigma”, além de seus poemas mais famosos como “E agora, José?” e “No meio do caminho”.
- Legado: É considerado um dos maiores escritores do Brasil, com poemas presentes na memória coletiva.
Um dos primeiros textos que lembro ter me levado muitas vezes ao dicionário:
Biblioteca verde
Carlos Drummond de Andrade
Papai, me compra a Biblioteca Internacional de Obras Célebres.
São só 24 volumes encadernados
Em percalina verde.
Meu filho, é livro demais para uma criança.
Compra assim mesmo, pai, eu cresço logo.
Quando crescer eu compro. Agora, não.
Papai, me compra agora. É em percalina verde,
Só 24 volumes. Compra, compra, compra.
Fica quieto, menino, eu vou comprar.
Rio de Janeiro? Aqui é o coronel.
Me mande urgente sua Biblioteca
Bem acondicionada, não quero defeito.
Se vier com arranhão recuso, já sabe:
quero devolução de meu dinheiro.
Está bem, Coronel, ordens são ordens.
Segue a Biblioteca pelo trem-de-ferro,
Fino caixote de alumínio e pinho.
Termina o ramal, o burro de carga
Vai levando tamanho universo.
Chega cheirando a papel novo, mata
de pinheiros toda verde. Sou
o mais rico menino destas redondezas.
(Orgulho, não; inveja de mim mesmo.)
Ninguém mais aqui possui a coleção
das Obras Célebres. Tenho de ler tudo.
Antes de ler, que bom passar a mão
no som da percalina, esse cristal
de fluida transparência: verde, verde.
Amanhã começo a ler. Agora não.
Agora quero ver figuras. Todas.
Templo de Tebas. Osíris, Medusa,
Apolo nu, Vênus nua… Nossa
Senhora, tem disso nos livros?
Depressa, as letras. Careço ler tudo.
A mãe se queixa: Não dorme este menino.
O irmão reclama: Apaga a luz, cretino!
Espermacete cai na cama, queima
a perna, o sono. Olha que eu tomo e rasgo
essa Biblioteca antes que pegue fogo
na casa. Vai dormir, menino, antes que eu perca
a paciência e te dê uma sova. Dorme,
filhinho meu, tão doido, tão fraquinho.
Mas leio, leio. Em filosofias
tropeço e caio, cavalgo de novo
meu verde livro, em cavalarias
me perco, medievo; em contos, poemas
me vejo viver. Como te devoro,
verde pastagem. Ou antes carruagem
de fugir de mim e me trazer de volta
à casa a qualquer hora num fechar
de páginas?
Tudo que sei é ela que me ensina.
O que saberei, o que não saberei
Nunca,
está na Biblioteca em verde murmúrio
de flauta-percalina eternamente.
Biblioteca verde, de Carlos Drummond de Andrade
E então, deixo aqui duas perguntas, a primeira é:
Qual seu texto preferido de Drummond?
A segunda, já procurou o significado de Percalina?
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